O sujeito que o contratara por um salário mínimo lhe dissera que ele ainda tinha sorte, pois onde já se viu, contratar numa crise dessas que grassava o país. Era um sujeito que gostava de usar verbos desse tipo, aureliados, pomposos, que pareciam conceder dignidade às suas palavras, muito embora ele não chegasse a materializar em sua mente tais abstrações. Grassar, retecer, conscupar; e por aí vai. E por detrás de sua cara amassada, toda a imponência autoritária, sim. Prerrogativa da qual ele se revestia no seu cargo. Ele alí, sentado, com a gravata e a palavra, ao passo que os homens que passavam por sua mesa permaneciam mudos, na submissão que a ele agradava, a não ser por rompantes monossilábicos do tipo “sim senhor” ou “não senhor”. Estivesse de bom humor, discorria também um pouco sobre os problemas do país. Culpava aos políticos, embora adorasse uma corruptela diária. Ostentava diplomas nas paredes – pintadas às pressas, de amarelo ocre – , todos falsos. Quem ousaria inquiri-lo sobre sua veracidade?
Achava que ganhava pouco, e por isso era inflexível. Julgava sua empresa importante a ponto de proibir que os empregados manchassem o santo nome dela envergando seus uniformes nos mais “infames botequins”.
Ele, à frente do tal sujeito, murmurou um muito obrigado. Conseguira, mas conteve o entusiasmo, afinal foram três meses de gravatas e palavras. Tantos narraram as condições socioeconômico-culturais da classe operária antes de brandir o típico “sinto muito” ou “você não se encaixa nos quesitos da corporação”. Não é preciso dizer que uma aura poética o havia rodeado. E isso o fez esquecer até mesmo da melancolia, poderia voltar a saborear o pão na chapa com mortadela daquelas de padaria mesmo. Poderia – há quanto tempo não o fazia – pegar um cineminha despretensioso no final de semana. Esticar pra uma porção de fritas e meia dúzia de garrafas geladíssimas. Pensar nisso o fez sorrir, lábios curvados tal qual arco de Eros. Ele não era burro, apenas não havia crescido num ambiente onde pudesse aprimorar sua educação. Faltava o tal canudo, mesmo sendo ele fervoroso devorador de livros. Resignava-se por saber das artes. De nada adiantava as belezas reconhecíveis de um Monet, as graciosas pinceladas de um Fragonard, a força de um Portinari; se sempre se sentia um Van Gogh, cuja morte solitária o provocava. Revoltava-o saber da literatura. Poe, Goethe, Kafka, Rachel de Queiroz, José de Alencar, Quintana. Pra quê, se seu sofrimento era extensão dos meandros literários?
Sabia da dinâmica dos oceanos, da diferença entre evolução vertical e especiação, das relações inseto-planta. Mas, dele só queriam a mecânica de seus braços. A força que engorda as barrigas e bolsos do sujeito que o contratara. Que paga as gravatinhas de seda e ternos que escondem a burrice dos patrões.
Já havia pensado em se atirar na frente do trem, como um desejo de retorno aos braços e seios maternos, e por que não, à vida uterina, indiferenciada e que todos iguala. Trem esse do sofrimento diário, do atropelamento metafórico. Não fosse o café com açúcar (a doçura na boca acalentadora do amargor da vida), tomado às pressas, não o aguentaria.
Sabia como ninguém dar valor às trivialidades da vida, essa tão efêmera e paradoxal.
E, certo dia, no meio do balanço da condução, um pensamento abafado sob as discussões da novela começou a ganhar a cabeça do tal homem. Foi percebendo, com clareza, que seu vazio não era só econômico. Estendia-se ao uniforme da firma em que fora contratado. Mero invólucro, dentro do qual ele se enfiava diariamente. O oco que o impedia de ser feliz. Resolveu, então, metamorfosear-se. Empupou, virou borboleta e voou. Era brasileiro, mas ser pentacampeão não era suficiente.
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sábado, 12 de dezembro de 2009
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Ventania
Estavam lá os quatro, vencidos pelo tempo, cada qual na sua velhice. Vinham de longe - claro, tudo fica longe quando se tem a idade que eles tem. Gosto de observá-los como um terceiro - ou quinto, não sei - reparo nos trejeitos, como cada sorriso torto forma novos desenhos nas rugas de um; como o outro, de tempo em tempo ajeita cuidadosamente o bigode que cultiva; enquanto os outros dois dividem um maço de cigarro filtro amarelo. Conversam. Entre uma pigarreada e outra riem de uma época que agora só existe em suas memórias fracas e questionáveis. Calam-se ao mesmo tempo, como se tivessem combinado, e a fumaça desenha entre os quatro uma melancolia amarga ao passo que param para ouvir a serenata nostáligca que segue silenciosa na mesa. Restam apenas as bolachas úmidas dos chopes que escorrem espumas enquanto eu os observo.
Olhando de longe, os velhos aparentemente relembram os tempos aureos, tirando sarro dessa juventude perdida. Mas os perdidos são eles. A terceira idade tinha chegado e não tinham tomado rumo na vida. Casaram-se, tiveram filhos e netos, mas não sabiam que diabos tinham ainda para fazer nesse mundo. O que pairava era a sensação de que ainda estavam por fazer algo grandioso, só não sabiam o que, nem quando. Cada um carregava em suas costas a própria cruz, em seus olhos pesados o conhecimento penoso de uma existência caótica e nos seus lábios secos e cansados de discussão, os sermões que antes proclamados com vigor, eram agora apenas inutilidades verborrágicas.
Estavam cansados, eu sei. Cansaram-se de escolher caminhos, de se apaixonarem, de discutir futebol e sexualidade, não se importavam mais se a culpa era do caos ou se o princípio era genético. Apenas agravavam suas feridas naquele silêncio perturbador, a perda da inocência, a falta de sentido, "a militância eterna". O niilismo barato já não servia mais àqueles velhos que antes achavam que podiam tudo. Mártires por excelência, hipócritas e egoístas, apreciaram a angústia por um momento, até que um deles olhou o relógio de pulso.
A despedida ainda continuava a mesma, mesmo após quarenta anos de encontros esporádicos, cada vez mais distantes um do outro. Um deve partir pois não pode se atrasar para o encontro familiar, os outros três aproveitam a deixa. Nesse momento, cada um levanta na velocidade que a coluna permite, apoiam-se nas cadeiras e um no outro. Um beijo, um abraço longo, e me vem à mente algo que Machado de Assis disse sobre o vento: "A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância".
Os velhos pagam a conta e saem, me viro para minha mesa de amigos. Marcos, Rodolfo, Guilherme e eu brindamos à nossa própria sorte.
Olhando de longe, os velhos aparentemente relembram os tempos aureos, tirando sarro dessa juventude perdida. Mas os perdidos são eles. A terceira idade tinha chegado e não tinham tomado rumo na vida. Casaram-se, tiveram filhos e netos, mas não sabiam que diabos tinham ainda para fazer nesse mundo. O que pairava era a sensação de que ainda estavam por fazer algo grandioso, só não sabiam o que, nem quando. Cada um carregava em suas costas a própria cruz, em seus olhos pesados o conhecimento penoso de uma existência caótica e nos seus lábios secos e cansados de discussão, os sermões que antes proclamados com vigor, eram agora apenas inutilidades verborrágicas.
Estavam cansados, eu sei. Cansaram-se de escolher caminhos, de se apaixonarem, de discutir futebol e sexualidade, não se importavam mais se a culpa era do caos ou se o princípio era genético. Apenas agravavam suas feridas naquele silêncio perturbador, a perda da inocência, a falta de sentido, "a militância eterna". O niilismo barato já não servia mais àqueles velhos que antes achavam que podiam tudo. Mártires por excelência, hipócritas e egoístas, apreciaram a angústia por um momento, até que um deles olhou o relógio de pulso.
A despedida ainda continuava a mesma, mesmo após quarenta anos de encontros esporádicos, cada vez mais distantes um do outro. Um deve partir pois não pode se atrasar para o encontro familiar, os outros três aproveitam a deixa. Nesse momento, cada um levanta na velocidade que a coluna permite, apoiam-se nas cadeiras e um no outro. Um beijo, um abraço longo, e me vem à mente algo que Machado de Assis disse sobre o vento: "A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância".
Os velhos pagam a conta e saem, me viro para minha mesa de amigos. Marcos, Rodolfo, Guilherme e eu brindamos à nossa própria sorte.
sábado, 10 de outubro de 2009
Lições
Não se pode esquecer que as coisas são como são. A possibilidade da mudança é apenas uma possibilidade e a mudança é uma ilusão, um eco. Sonhos, pensamentos e preces continuarão sendo sempre sonhos, pensamentos e preces. Por isso é melhor que os tenhamos e as façamos em silêncio. O ridículo é uma realidade em potencial, vindo à tona sempre que nos expomos e contamos aquilo que esperamos em nosso íntimo.
E ainda que procuremos algo a dizer, nos veremos de frente para uma parede que não tem nem sombra. Não é possível ao menos um reflexo. Talvez o que reste a dizer é: não espere, não precise, não fale, não dependa. E se prepare ao seu modo, com uma disciplina religiosa. Não tenha paciência, não tenha fé, não se desculpe. O caminho para frente é duro, é cruel e irá machucá-lo a cada passo através de lembranças e pegadas. Mas é o único caminho existente.
Não foi esse o método que escolhi quando tive a chance de escolher. Preferi acreditar que os caminhos são muitos e que, por mais que me machucassem, chegariam, eventualmente, ao fim. Resolvi acreditar que a mudança acontece a todo instante e que o ridículo é apenas momentâneo, suportável, e seria possível rir dele depois de um tempo.
Decidi que sempre é possível dizer tudo. E aquilo que já foi dito antes poderia ser colocado de forma diferente, na ideia de reforçar, reafirmar, consolidar um sentimento, um pensamento, uma crença, e que isso seria sempre válido. Eu sabia da existência da parede e, até encontrá-la, tive em mim a certeza de que nenhum obstáculo seria intransponível. Contei a todos os meus sonhos, meus pensamentos e minha fé. Me expus. Esperei, precisei, falei e dependi. E vi que a parede tinha sombra e ela cobria tudo que eu havia deixado atrás de mim: desculpas, confissões, memórias...
E o que eu posso dizer é que, de um jeito ou de outro, o caminho é o mesmo não importa a forma com a qual você o encare. E é estreito demais para seguir de outro jeito que não sozinho. Por mais que eu tenha tido paciência, me estressei. Por mais que eu tenha me desculpado, me arrependi de tê-lo feito. Por mais que eu tenha rido, eu tive uma fúria cega que não distinguia nada à sua frente. Porque não importa o que se faça, o que se sinta, o que se pense: a solidão é inevitável. E ela tem no rosto uma expressão de quem diz: "não me leve a mal, é assim que as coisas são".
Então levem como quiserem levar. Não há moral no fim da história, não há lição a se aprender, por isso sejam como quiserem. Todos os caminhos são iguais, todas as pessoas são iguais e, por mais incríveis que sejam, insensivelmente o deixarão como estava antes de encontrá-las: só. E nós, em nossa inocência - ou incapacidade de aceitar o mundo, ou incompreensão diante de mistérios maiores que nós - continuaremos a acreditar na possibilidade da mudança por meio de nossos sonhos, palavras, gestos ou pensamentos. Nossa ternura é vista apenas pelo canto dos olhos, pelo franzir de sobrancelhas. Somos estranhos em nossas crenças pois rezamos a um deus que só existe para nós e que responde apenas à nossa sandice. Eu, por minha vez, mudei. Quem sabe apenas instantaneamente, pois a possibilidade da mudança é apenas uma possibilidade, e a mudança é apenas uma ilusão.
E ainda que procuremos algo a dizer, nos veremos de frente para uma parede que não tem nem sombra. Não é possível ao menos um reflexo. Talvez o que reste a dizer é: não espere, não precise, não fale, não dependa. E se prepare ao seu modo, com uma disciplina religiosa. Não tenha paciência, não tenha fé, não se desculpe. O caminho para frente é duro, é cruel e irá machucá-lo a cada passo através de lembranças e pegadas. Mas é o único caminho existente.
Não foi esse o método que escolhi quando tive a chance de escolher. Preferi acreditar que os caminhos são muitos e que, por mais que me machucassem, chegariam, eventualmente, ao fim. Resolvi acreditar que a mudança acontece a todo instante e que o ridículo é apenas momentâneo, suportável, e seria possível rir dele depois de um tempo.
Decidi que sempre é possível dizer tudo. E aquilo que já foi dito antes poderia ser colocado de forma diferente, na ideia de reforçar, reafirmar, consolidar um sentimento, um pensamento, uma crença, e que isso seria sempre válido. Eu sabia da existência da parede e, até encontrá-la, tive em mim a certeza de que nenhum obstáculo seria intransponível. Contei a todos os meus sonhos, meus pensamentos e minha fé. Me expus. Esperei, precisei, falei e dependi. E vi que a parede tinha sombra e ela cobria tudo que eu havia deixado atrás de mim: desculpas, confissões, memórias...
E o que eu posso dizer é que, de um jeito ou de outro, o caminho é o mesmo não importa a forma com a qual você o encare. E é estreito demais para seguir de outro jeito que não sozinho. Por mais que eu tenha tido paciência, me estressei. Por mais que eu tenha me desculpado, me arrependi de tê-lo feito. Por mais que eu tenha rido, eu tive uma fúria cega que não distinguia nada à sua frente. Porque não importa o que se faça, o que se sinta, o que se pense: a solidão é inevitável. E ela tem no rosto uma expressão de quem diz: "não me leve a mal, é assim que as coisas são".
Então levem como quiserem levar. Não há moral no fim da história, não há lição a se aprender, por isso sejam como quiserem. Todos os caminhos são iguais, todas as pessoas são iguais e, por mais incríveis que sejam, insensivelmente o deixarão como estava antes de encontrá-las: só. E nós, em nossa inocência - ou incapacidade de aceitar o mundo, ou incompreensão diante de mistérios maiores que nós - continuaremos a acreditar na possibilidade da mudança por meio de nossos sonhos, palavras, gestos ou pensamentos. Nossa ternura é vista apenas pelo canto dos olhos, pelo franzir de sobrancelhas. Somos estranhos em nossas crenças pois rezamos a um deus que só existe para nós e que responde apenas à nossa sandice. Eu, por minha vez, mudei. Quem sabe apenas instantaneamente, pois a possibilidade da mudança é apenas uma possibilidade, e a mudança é apenas uma ilusão.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Aos meus queridos mineiros
Sei também que a partir daquele dia nos fizemos amigos. Amigos, pois, desde o primeiro choro. Amizade que nunca sofrera pausa, embora imaginosa. Vale dizer quase amigos de infância, se pensarmos na graciosa efemeridade do tempo, esse sim astuto com suas ampulhetas, sabido como só ele, nos nossos joelhos rotos de tardes de futebol, das batalhas de gude, de disputas quixotescas pueris.
Melancolicamente, seguimos correntes divergentes. Talvez pelo fato de sabermos que, quando menos esperaríamos, nossas andanças convergissem. E então relembraríamos, guardadas nítida e caprichosamente, as bonitezas espontâneas de aventuras passadas. Riríamos, primaveris. Afinal, creio eu, se extende o étimo das palavras às amizades. Originadas do nada, irradiadas ao infinito. Deve ser por isso o vazio. Deve ser por isso a neblina.
Pudera eu brincar com o mar, deixando os deveres se cumprirem sozinhos; somente para me sentir melhor. Quisera eu, nas mesinhas, aquelas de plástico mesmo, pedir quatro copos duas garrafas. Beberíamos ao nada, no vaivém das bundas na calçada. Citaríamos a literatura, cada qual puxando a sardinha pro seu lado. Discutiríamos polêmicas, já embriagados. Trivialidades iriam e voltariam no passo apressado dos goles. Mulheres, mulheres, mulheres. E, somente com a certeza do retorno, faríamos a despedida. -Mais uma, pra fechar!
E então o poeta, o latino, o japonês e eu nos abraçaríamos. Felizes. Integralmente. Satisfeitos, ficaremos. Como quatro irmãos de sangue, verdadeiros mineiros, na hulha que nos foi honrada. Afinal, disse Cícero, Verae amicitiae sempiternae sunt.
Melancolicamente, seguimos correntes divergentes. Talvez pelo fato de sabermos que, quando menos esperaríamos, nossas andanças convergissem. E então relembraríamos, guardadas nítida e caprichosamente, as bonitezas espontâneas de aventuras passadas. Riríamos, primaveris. Afinal, creio eu, se extende o étimo das palavras às amizades. Originadas do nada, irradiadas ao infinito. Deve ser por isso o vazio. Deve ser por isso a neblina.
Pudera eu brincar com o mar, deixando os deveres se cumprirem sozinhos; somente para me sentir melhor. Quisera eu, nas mesinhas, aquelas de plástico mesmo, pedir quatro copos duas garrafas. Beberíamos ao nada, no vaivém das bundas na calçada. Citaríamos a literatura, cada qual puxando a sardinha pro seu lado. Discutiríamos polêmicas, já embriagados. Trivialidades iriam e voltariam no passo apressado dos goles. Mulheres, mulheres, mulheres. E, somente com a certeza do retorno, faríamos a despedida. -Mais uma, pra fechar!
E então o poeta, o latino, o japonês e eu nos abraçaríamos. Felizes. Integralmente. Satisfeitos, ficaremos. Como quatro irmãos de sangue, verdadeiros mineiros, na hulha que nos foi honrada. Afinal, disse Cícero, Verae amicitiae sempiternae sunt.
domingo, 28 de junho de 2009
Inevitabilidade.
Que podiam fazer? Não era prostração, não se perdiam. A mesa olhava curiosa os olhares fixos no nada dos quatro que a cercavam. Passivos. Vez ou outra podia se perceber os olhos fechados de um deles, atento à música. Lembravam-se de futuros imaginados milhares e milhares de vezes nos instantes de solidão, como era o caso agora. Tinham um ao outro, mas sempre falta alguém no coração dos que os sonhos tornam passíveis. Quatro pobres, molhando os dedos no suor do chope.
Aquela seria então sua militância eterna. Por aquilo lutaria toda sua vida até que não restasse mais nada de si ou do sonho, até que morresse ou morressem os outros. Teria por fim aquela justa de manter por perto o que a vida, em seus sopros de medo e incerteza, insiste em levar para fora do alcance das mãos. Até então não entendiam que aquilo também era uma forma de amadurecimento: perder.
Qual... Ocasionalmente se olhavam sem expressão, tal como animais que, diante da morte, sabem seu destino. Viam os risos dos outros sem entender, ouviam suas histórias que contavam erguendo os punhos, gesticulando ferozmente fatos merecedores de silêncio. Existem momentos em que qualquer palavra é sem sentido e, se pronunciada, perde seu valor, tendo em vista a gravidade da hora em que se encontra. Por muitas vezes - e eles sabiam disso - qualquer esboço de pronúncia arruína um momento.
Seja então o silêncio a condição da união. Não é preciso dizer nada. Muito do que sentimos se perde sem a merecida magnitude ao transmutarmos dores em sentenças. Mas não aprendemos e não aprederemos nunca...
De alguma forma seguimos repetindo erros na esperança de que a exceção, algum dia, se transforme em regra e vejamos, finalmente, versos mudarem opiniões. Nunca...
Nós, pobres, seres que choram palavras, os eternos errantes entre iguais que já não querem mais ler. Erraremos sempre em favor de nossa tola e infantil espera. Seja esse o marco zero do infinito funeral de nossas memórias. No fundo nada nunca muda.
Deitemos, sonhemos. Que podemos fazer? Nunca estivemos tão próximos de nossa própria verdade.
Aquela seria então sua militância eterna. Por aquilo lutaria toda sua vida até que não restasse mais nada de si ou do sonho, até que morresse ou morressem os outros. Teria por fim aquela justa de manter por perto o que a vida, em seus sopros de medo e incerteza, insiste em levar para fora do alcance das mãos. Até então não entendiam que aquilo também era uma forma de amadurecimento: perder.
Qual... Ocasionalmente se olhavam sem expressão, tal como animais que, diante da morte, sabem seu destino. Viam os risos dos outros sem entender, ouviam suas histórias que contavam erguendo os punhos, gesticulando ferozmente fatos merecedores de silêncio. Existem momentos em que qualquer palavra é sem sentido e, se pronunciada, perde seu valor, tendo em vista a gravidade da hora em que se encontra. Por muitas vezes - e eles sabiam disso - qualquer esboço de pronúncia arruína um momento.
Seja então o silêncio a condição da união. Não é preciso dizer nada. Muito do que sentimos se perde sem a merecida magnitude ao transmutarmos dores em sentenças. Mas não aprendemos e não aprederemos nunca...
De alguma forma seguimos repetindo erros na esperança de que a exceção, algum dia, se transforme em regra e vejamos, finalmente, versos mudarem opiniões. Nunca...
Nós, pobres, seres que choram palavras, os eternos errantes entre iguais que já não querem mais ler. Erraremos sempre em favor de nossa tola e infantil espera. Seja esse o marco zero do infinito funeral de nossas memórias. No fundo nada nunca muda.
Deitemos, sonhemos. Que podemos fazer? Nunca estivemos tão próximos de nossa própria verdade.
domingo, 26 de abril de 2009
Una cosa que me molesta
Me tornei epicurista, ao menos aos finais de semana. Afinal, embora o corpo insista em informar-me de seu eterno cansaço, a noite (diferenciada do dia somente pelo escuro, viste a atmosfera "ligeiramente" abafada, sustentada 24 horas por dia) permite que eu escolha, dentre os infinitos zigue-zagues de informações, uma. E, como todo indivíduo, munido do know-how para o tal, escolho a que mais me toca. Simples raciocínio: sei que a minha percepção sensível é inata, assim como em todos os outros. Mas, vou além. Mantendo essa percepção, a persistência retida traz consigo algo incomparável, a impressão sensível na alma. E, como disse certa vez um grego metido a besta de nome Sócrates, da sensação vem aquilo a que chamamos lembrança. E, indubitavelmente, do coletivo de todas essas a que mais fundamenta tudo o que foi escrito antes, são vocês, AMIGOS. E nem preciso salientar o quanto, tanto já foi dito e ouvido. Muito menos mencionar a tal da saudade, ainda incompreensível à minha (limitada) reflexão. Coberto de carvão ou semelhante que o valha, me vejo como um mineiro, de lanterna na cabeça e picareta na mão, procurando lapidar das grossas paredes da amizade, tesouros inestimáveis os quais guardarei na minha bolsa das lembranças. Preciosos, é isso que vocês são. Espero, pacientemente, que tudo esteja ó-cá por aí. E, porra, como eu queria compartilhar una cerveza com meus colegas mineiros.
quinta-feira, 26 de março de 2009
Não era questão de haver silêncio ou das palavras serem incessantes. Nos comunicávamos com o mundo físico apenas por uma necessidade, vivíamos mesmo era em uma realidade inventada, planejada minuciosamente no decorrer de instantes misteriosos em que não há uma regra pra tudo: improvisa-se de acordo com o que se recebe da vida. E foi assim que, de uma forma ou de outra, aprendemos a viver sem grandes preocupações. Uma tarefa, uma obrigação, mas nada insuperável, nada que fosse eterno. Nossa memória tinha de se ocupar com coisas mais importantes do que a incerteza.
Andávamos em um passo acelerado demais para quem não queria deixar o outro, eu e a Amiga. Nos olhávamos curiosos e ríamos dessa curiosidade, como se ela fosse uma coisa constrangedora, desnecessária naquele momento. Ergui a mão para coçar o olho e vi uma mãe trazendo a filha pela mão. A criança gritava à figura materna um desejo importantíssimo e estava a ponto de chorar, de bater naquela mulher se fosse preciso. Só as crianças sabem desejar com verdade. A mãe, como toda mãe que, chegando o final da tarde vive também fora do mundo, negou, não verbalmente, mas ignorando a súplica voraz da criança. Trágica ou não, ri da cena. Pensei que é a ordem natural das coisas uma criança querer e a afirmação dessa ordem é a mãe negar. O troco surgirá de um rancor que, voluntário ou não, se manifesta anos depois. Mães negam aos filhos. Crescidos, são os filhos que negam as mães - e às mães, posteriormente, completando o ciclo.
Naquele momento éramos crianças, aquela a quem escolhi chamar de Poesia e eu. Nos enchíamos de desejos e rogávamos a Deus ao mesmo tempo, em segredo, como o desejo deve ser mantido. De certa forma ouvíamos a voz risonha nos dizendo "não dá, não dá!"
Nos calávamos mais intensamente. De súbito um céu de outono seguido de vento nos cortava os olhos. Os fechamos parcialmente. A criança tinha ido com sua mãe e o dia nos seguia lentamente em nossa marcha quase acelerada. O que restou no chão que pisamos foram os desejos que descartamos. Ficamos com os sonhos e com a nossa realidade fantasiosa, dos quais não nos separamos nunca e onde, incompreensivelmente, os desejos nos seguem de volta, nos alcançando mais rápido do que podemos imaginar.
Andávamos em um passo acelerado demais para quem não queria deixar o outro, eu e a Amiga. Nos olhávamos curiosos e ríamos dessa curiosidade, como se ela fosse uma coisa constrangedora, desnecessária naquele momento. Ergui a mão para coçar o olho e vi uma mãe trazendo a filha pela mão. A criança gritava à figura materna um desejo importantíssimo e estava a ponto de chorar, de bater naquela mulher se fosse preciso. Só as crianças sabem desejar com verdade. A mãe, como toda mãe que, chegando o final da tarde vive também fora do mundo, negou, não verbalmente, mas ignorando a súplica voraz da criança. Trágica ou não, ri da cena. Pensei que é a ordem natural das coisas uma criança querer e a afirmação dessa ordem é a mãe negar. O troco surgirá de um rancor que, voluntário ou não, se manifesta anos depois. Mães negam aos filhos. Crescidos, são os filhos que negam as mães - e às mães, posteriormente, completando o ciclo.
Naquele momento éramos crianças, aquela a quem escolhi chamar de Poesia e eu. Nos enchíamos de desejos e rogávamos a Deus ao mesmo tempo, em segredo, como o desejo deve ser mantido. De certa forma ouvíamos a voz risonha nos dizendo "não dá, não dá!"
Nos calávamos mais intensamente. De súbito um céu de outono seguido de vento nos cortava os olhos. Os fechamos parcialmente. A criança tinha ido com sua mãe e o dia nos seguia lentamente em nossa marcha quase acelerada. O que restou no chão que pisamos foram os desejos que descartamos. Ficamos com os sonhos e com a nossa realidade fantasiosa, dos quais não nos separamos nunca e onde, incompreensivelmente, os desejos nos seguem de volta, nos alcançando mais rápido do que podemos imaginar.
segunda-feira, 23 de março de 2009
No mais, o aniversário
Os olhos ardiam devido ao forte sol que atravessava a janela, insistiam em se fechar, se era o cansaço ou o marasmo, não sabia. Parecia voltar da escola, estranho, pois esta acabara a dois anos atrás. embora a nostalgia fosse constante, não havia saudade, apenas satisfação. O amanhã lhe parecia mais interessante, não era promissor, somente diferente.
Entre 365 possibilidades, veio ao mundo justamente neste dia. Poderia ter nascido no dia 12 de outubro, seria a eterna criança; primeiro de abril, o mentiroso nato; 25 de dezembro, o mártir da humanidade. No entanto, a aleatoriedade que rege o universo se fez presente pela segunda vez (já que mais incontáveis vezes estariam por vir) e nasceu num dia qualquer que não importaria a ninguém mais a não ser a si mesmo.
Comemoração engraçada essa, uma convenção baseada em outra, marco que não faz sentido. Quantas vezes passara em branco esta data, sem nenhum profundo sentimento de que crescera? Todos, eu diria. Claro, seus pais ficariam indignados, mas faria muito mais sentido comemorar o dia em que dera o seu primeiro beijo em uma menina, bebera da primeira cerveja, tragara do primeiro cigarro, no dia em que lera a última página de "O Apanhador no Campo de Centeio", ou mesmo no dia que aprendera a jogar truco.
Usava camisa preta em pleno calor de março, duas da tarde, como que por martírio de tais pensamentos. O suor gotejava, fazendo o papel das lágrimas que não ousavam se derramar dos olhos cerrados, sem foco. Por martírio também, não enxugava a testa, queria sentir cada gota escorrer em sua face a prova de que ainda estava vivo.
E assim vivia, em constante provação consigo mesmo, constantes dúvidas cheias de "não sei". Mas bobagem pensar que daqui dez ou vinte anos as dúvidas acabariam, que a angústia cessaria. A pedido do próprio, se um dia a angústia acabar, devo enterrá-lo gentilmente como quem cumpriu seu papel em vida.
Apesar da aparente tortura em que se encontrava, muito melhor do que um feliz aniversário era um "obrigado por existir" de suas cúmplices amorosas, estes sim, deveriam ser comemorados e ditos todos os dias, mesmo que não declarados. Com alguma pretensão e um discreto sorriso, ouvia, mesmo sem palavras, um sussurro "obrigado por existir" e lhe enchia o ego. Mesmo que a frequência com que tal frase era dita fosse mil vezes menor do que a frequência com que era esquecida, não são todos que lembram do seu aniversário, não é?
Por fim, de banho tomado e sapatos novos, juntou-se à única certeza que ainda lhe restava: a família. Tal qual a Última Ceia de DaVinci, distribuiu o bolo de limão (chocolate é coisa de criança) e já perdendo a conta, por mais um ano, registrou para a eternidade aquele momento vazio. Todos sorriam, o primogênito está ficando mais velho. Será?
Entre 365 possibilidades, veio ao mundo justamente neste dia. Poderia ter nascido no dia 12 de outubro, seria a eterna criança; primeiro de abril, o mentiroso nato; 25 de dezembro, o mártir da humanidade. No entanto, a aleatoriedade que rege o universo se fez presente pela segunda vez (já que mais incontáveis vezes estariam por vir) e nasceu num dia qualquer que não importaria a ninguém mais a não ser a si mesmo.
Comemoração engraçada essa, uma convenção baseada em outra, marco que não faz sentido. Quantas vezes passara em branco esta data, sem nenhum profundo sentimento de que crescera? Todos, eu diria. Claro, seus pais ficariam indignados, mas faria muito mais sentido comemorar o dia em que dera o seu primeiro beijo em uma menina, bebera da primeira cerveja, tragara do primeiro cigarro, no dia em que lera a última página de "O Apanhador no Campo de Centeio", ou mesmo no dia que aprendera a jogar truco.
Usava camisa preta em pleno calor de março, duas da tarde, como que por martírio de tais pensamentos. O suor gotejava, fazendo o papel das lágrimas que não ousavam se derramar dos olhos cerrados, sem foco. Por martírio também, não enxugava a testa, queria sentir cada gota escorrer em sua face a prova de que ainda estava vivo.
E assim vivia, em constante provação consigo mesmo, constantes dúvidas cheias de "não sei". Mas bobagem pensar que daqui dez ou vinte anos as dúvidas acabariam, que a angústia cessaria. A pedido do próprio, se um dia a angústia acabar, devo enterrá-lo gentilmente como quem cumpriu seu papel em vida.
Apesar da aparente tortura em que se encontrava, muito melhor do que um feliz aniversário era um "obrigado por existir" de suas cúmplices amorosas, estes sim, deveriam ser comemorados e ditos todos os dias, mesmo que não declarados. Com alguma pretensão e um discreto sorriso, ouvia, mesmo sem palavras, um sussurro "obrigado por existir" e lhe enchia o ego. Mesmo que a frequência com que tal frase era dita fosse mil vezes menor do que a frequência com que era esquecida, não são todos que lembram do seu aniversário, não é?
Por fim, de banho tomado e sapatos novos, juntou-se à única certeza que ainda lhe restava: a família. Tal qual a Última Ceia de DaVinci, distribuiu o bolo de limão (chocolate é coisa de criança) e já perdendo a conta, por mais um ano, registrou para a eternidade aquele momento vazio. Todos sorriam, o primogênito está ficando mais velho. Será?
No mais, obrigado a todos por exisitirem, e para mim, um feliz aniversário.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
I'm in the tunnel of love
I’m in the tunnel of love. A passagem aparenta ser estreita, aparentemente moldada à passagem de um casal por vez. Tíquetes, só os de ida. Sabe-se lá onde vai desembocar esse túnel. Muitos embarcam ansiosos, talvez passageiros de primeira viagem. Por entre beijos apaixonados se deixam levar ao sabor da brisa através do procurado túnel. Outros, ligeiramente nervosos, escondem travessias feitas e, por temerem o corriqueiro destino, ensaiam risos amarelos a seus companheiros.
Dizem que esse túnel cega os passantes. Não cegueira física, mas deslumbramento. Algumas dessas cegueiras perduram anos, décadas. Outras cessam num piscar de olhos e lá se vão esses desiludidos tomar a fila do túnel de novo. O movimento é intenso. Vendedores de flores, de maçãs-do-amor, de chocolates de todos os sabores misturam-se à multidão de esperançosos. E como lucram!
Mais um casal inicia a travessia. Sob uma ressoada de assovios, entreolham-se e como se dissessem “arrisquemo-nos”, somem no escuro do túnel. Tragados pela arte de Eros, mãos unidas; se aceitam, complacentes. Tolos! – murmuraria a consciência.
Dizem, também, que esse túnel julga com propriedade cada par que se arrisca a tão almejada travessia. Impiedoso, age dialeticamente. Tanto que os ingressos são distribuídos livremente. Basta chegar. Bastaria estar apaixonado, porém feições alegres mascaram relacionamentos dúbios, pares totalmente fora de sintonia. “Cada um que assuma os seus riscos” – diz uma placa por sobre a entrada do túnel.
Há dias em que se formam filas astronômicas. Apaixonados de todos os lugares aguardam sua vez. Alguns, assim como nas igrejas, desistem na hora agá. Corações partidos se multiplicam, elos aparentemente perpétuos são quebrados pela simples presença da entrada do tal túnel. Vítimas do amor, por mais irônico que isso possa soar.
Já pensaram em demoli-lo, para que os escombros servissem como esclarecedor às gerações futuras. Fui um dos que foram contra. Afinal, nunca havia sido transportado ao outro lado. E parece que esse tempo chegou. Sintomas não me faltam, vontade, tampouco. Mas os receios perduram. E se? – quantos já não pronunciei. Conselhos, recebi aos montes. E, por desconhecer o grau de reciprocidade que ela deposita sobre mim, adio ao máximo essa tentativa. É intrínseco de a minha pessoa cultivar aquele pouco de dúvida, admito. Que seja! Penso, pela primeira vez em toda a minha curta existência, de me jogar de cabeça nesse túnel. E a escolhi, ela, com toda a graça e defeitos. E torço, no meu íntimo, que o caminho seja o mais tortuoso possível. Quero, mais que tudo, que valha a pena.
Dizem que esse túnel cega os passantes. Não cegueira física, mas deslumbramento. Algumas dessas cegueiras perduram anos, décadas. Outras cessam num piscar de olhos e lá se vão esses desiludidos tomar a fila do túnel de novo. O movimento é intenso. Vendedores de flores, de maçãs-do-amor, de chocolates de todos os sabores misturam-se à multidão de esperançosos. E como lucram!
Mais um casal inicia a travessia. Sob uma ressoada de assovios, entreolham-se e como se dissessem “arrisquemo-nos”, somem no escuro do túnel. Tragados pela arte de Eros, mãos unidas; se aceitam, complacentes. Tolos! – murmuraria a consciência.
Dizem, também, que esse túnel julga com propriedade cada par que se arrisca a tão almejada travessia. Impiedoso, age dialeticamente. Tanto que os ingressos são distribuídos livremente. Basta chegar. Bastaria estar apaixonado, porém feições alegres mascaram relacionamentos dúbios, pares totalmente fora de sintonia. “Cada um que assuma os seus riscos” – diz uma placa por sobre a entrada do túnel.
Há dias em que se formam filas astronômicas. Apaixonados de todos os lugares aguardam sua vez. Alguns, assim como nas igrejas, desistem na hora agá. Corações partidos se multiplicam, elos aparentemente perpétuos são quebrados pela simples presença da entrada do tal túnel. Vítimas do amor, por mais irônico que isso possa soar.
Já pensaram em demoli-lo, para que os escombros servissem como esclarecedor às gerações futuras. Fui um dos que foram contra. Afinal, nunca havia sido transportado ao outro lado. E parece que esse tempo chegou. Sintomas não me faltam, vontade, tampouco. Mas os receios perduram. E se? – quantos já não pronunciei. Conselhos, recebi aos montes. E, por desconhecer o grau de reciprocidade que ela deposita sobre mim, adio ao máximo essa tentativa. É intrínseco de a minha pessoa cultivar aquele pouco de dúvida, admito. Que seja! Penso, pela primeira vez em toda a minha curta existência, de me jogar de cabeça nesse túnel. E a escolhi, ela, com toda a graça e defeitos. E torço, no meu íntimo, que o caminho seja o mais tortuoso possível. Quero, mais que tudo, que valha a pena.
domingo, 18 de janeiro de 2009
Ainda (e sempre) sobre a existência.
Muitas vezes me questiono sobre minhas escolhas. Mais ainda, me questiono sobre as atitudes que tomei e que me fizeram chegar a essas escolhas. Também penso, embora com menos frequência, a respeito de minhas atitudes posteriores a essas escolhas. Me vem à cabeça então o mito de Sísifo, o grego que enganou a morte e desafiou os deuses, tendo como punição empurrar montanha acima uma pedra de mármore. Sempre que chegava ao topo, a pedra rolava caminho abaixo, fazendo Sísifo repetir a tarefa eternamente.
Talvez esse pensamento não seja exclusividade minha, pois então pergunto: qual o sentido de nos esforçarmos, darmos o máximo de nós mesmos e, estando a ponto de conquistar o objetivo, um acontecimento nos impelir ao princípio? Qual a razão existente nesse eterno caminho de escolhas que, na verdade, não nos dá direito a escolha alguma?
A verdade é que me sinto perdido, sem saber para onde ir, chegando à conclusão de que não importam as nossas próprias conclusões e filosofias: o caminho é um só. Não me lembro desde quando deixei de acreditar em destino e me mantenho firme nessa decisão apesar desse meio-termo que estou citando agora. Digo que o caminho é um só pois todos eles levam a nós mesmos. Individualista e egoísta, mas verdade. No fim só podemos contar com nós mesmos. O que é decepcionante para alguém com a minha filosofia de não poder - nem conseguir - existir sozinho.
Quem sabe essa não seja a resposta às perguntas acima? Devemos repetir até que aprendamos o seguinte: nós somos sós, apesar dos outros. E como escreveu Leminski, "só o erro tem vez". Sinto que é exigindo cada vez mais de nós mesmos, sobrevivendo através de brechas milimétricas que vamos descobrindo neste espaço em que estamos imersos, reconstruiremos, desta vez mais resistentes, as partes que perdemos ao longo dos rumos que seguimos, que, na verdade, é um só: o que escolhemos. Lembrando de Fernando Sabino, a tristeza é que, de cem caminhos, temos de optar por apenas um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove. E, pensando mais claramente agora que escrevo, vejo que minha decepção é ter de abandonar tudo o que poderia ser mas não será, porque, assim que eu decidir qual direção seguir, os outros caminhos existirão paralelos ao que eu sigo, mas só serei presente neles em imaginação. À medida que penso o tempo para optar se esgota. Minha maior frustração é saber que não conhecerei tudo que sonho em conhecer.
Meu conforto é saber também que, independente de qual caminho eu escolher, o arrependimento e a nostalgia daquilo que não vivi existirão e é exatamente isso que me motivará a perseguir incansável e obstinadamente tudo o que procuro, tudo o que sonho e tudo aquilo que vi e senti nos passados noventa e nove caminhos que não trilhei.
Fica abaixo um trecho de Machado de Assis.
"Se só me faltassem os outros, vá lá,
um homem consola-se mais ou menos
das pessoas que perde;
mas falto eu mesmo,
e esta lacuna é tudo."
Talvez esse pensamento não seja exclusividade minha, pois então pergunto: qual o sentido de nos esforçarmos, darmos o máximo de nós mesmos e, estando a ponto de conquistar o objetivo, um acontecimento nos impelir ao princípio? Qual a razão existente nesse eterno caminho de escolhas que, na verdade, não nos dá direito a escolha alguma?
A verdade é que me sinto perdido, sem saber para onde ir, chegando à conclusão de que não importam as nossas próprias conclusões e filosofias: o caminho é um só. Não me lembro desde quando deixei de acreditar em destino e me mantenho firme nessa decisão apesar desse meio-termo que estou citando agora. Digo que o caminho é um só pois todos eles levam a nós mesmos. Individualista e egoísta, mas verdade. No fim só podemos contar com nós mesmos. O que é decepcionante para alguém com a minha filosofia de não poder - nem conseguir - existir sozinho.
Quem sabe essa não seja a resposta às perguntas acima? Devemos repetir até que aprendamos o seguinte: nós somos sós, apesar dos outros. E como escreveu Leminski, "só o erro tem vez". Sinto que é exigindo cada vez mais de nós mesmos, sobrevivendo através de brechas milimétricas que vamos descobrindo neste espaço em que estamos imersos, reconstruiremos, desta vez mais resistentes, as partes que perdemos ao longo dos rumos que seguimos, que, na verdade, é um só: o que escolhemos. Lembrando de Fernando Sabino, a tristeza é que, de cem caminhos, temos de optar por apenas um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove. E, pensando mais claramente agora que escrevo, vejo que minha decepção é ter de abandonar tudo o que poderia ser mas não será, porque, assim que eu decidir qual direção seguir, os outros caminhos existirão paralelos ao que eu sigo, mas só serei presente neles em imaginação. À medida que penso o tempo para optar se esgota. Minha maior frustração é saber que não conhecerei tudo que sonho em conhecer.
Meu conforto é saber também que, independente de qual caminho eu escolher, o arrependimento e a nostalgia daquilo que não vivi existirão e é exatamente isso que me motivará a perseguir incansável e obstinadamente tudo o que procuro, tudo o que sonho e tudo aquilo que vi e senti nos passados noventa e nove caminhos que não trilhei.
Fica abaixo um trecho de Machado de Assis.
"Se só me faltassem os outros, vá lá,
um homem consola-se mais ou menos
das pessoas que perde;
mas falto eu mesmo,
e esta lacuna é tudo."
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
O admirador
Me lembro da primeira vez que me encontrei de fato com o mar. De longe o ribombo ressoando, indo e voltando com a maré. Passo por passo, calcados obstinadamente, parei a sua frente. A primeira onda me alcançou, vindo como uma mensageira me receber, fazendo meus pés submergirem na areia. Assim que voltou de onde veio, já pensando em voltar, levou de mim a única inocência que me restara: a de crer na perenidade das coisas.
Talvez seja esse o motivo da ligação quase religiosa que tenho com o mar. Essa busca incessante pelo eterno, pela segurança, essa constante fuga do medo e da Morte. Essa descrença no infinito, ainda que não me falte vontade de acreditar.
Em outra ocasião me lembro dos pescadores, de suas feições passivas de felicidade, de aceitação. Olhos crispados em fé, já sem lágrimas. As redes contrastando com as almas que nublavam as tardes. Seus longos silêncios, interrompidos vez ou outra pelo choque entre madeiras, e então iam. Rompiam a água como uma enorme quilha do próprio mar, passavam a pequena ilha onde havia uma pequena igreja branca de batentes azuis e um túmulo, a memória cercada de pedras em direção ao céu, e sumiam. Voltaram, quem sabe. Nunca os vi voltar.
Engraçada essa coisa do mar de dar e tirar, entregar e levar. De repente me lembrei de todas as conchas que perdi para a corrente, dando sem querer de volta ao mar o que peguei sem permissão.
De repente me lembro que o mar está longe, que a Mulher está longe, que os Amigos e Amigas estão longe e que tem chovido incessantemente durante horas como se todas as divindades resolvessem enfurecer-se pela minha incapacidade de ser sozinho. A verdade é que não sei ser absolutamente nada sem essas coisas.
Talvez seja esse o motivo da ligação quase religiosa que tenho com o mar. Essa busca incessante pelo eterno, pela segurança, essa constante fuga do medo e da Morte. Essa descrença no infinito, ainda que não me falte vontade de acreditar.
Em outra ocasião me lembro dos pescadores, de suas feições passivas de felicidade, de aceitação. Olhos crispados em fé, já sem lágrimas. As redes contrastando com as almas que nublavam as tardes. Seus longos silêncios, interrompidos vez ou outra pelo choque entre madeiras, e então iam. Rompiam a água como uma enorme quilha do próprio mar, passavam a pequena ilha onde havia uma pequena igreja branca de batentes azuis e um túmulo, a memória cercada de pedras em direção ao céu, e sumiam. Voltaram, quem sabe. Nunca os vi voltar.
Engraçada essa coisa do mar de dar e tirar, entregar e levar. De repente me lembrei de todas as conchas que perdi para a corrente, dando sem querer de volta ao mar o que peguei sem permissão.
De repente me lembro que o mar está longe, que a Mulher está longe, que os Amigos e Amigas estão longe e que tem chovido incessantemente durante horas como se todas as divindades resolvessem enfurecer-se pela minha incapacidade de ser sozinho. A verdade é que não sei ser absolutamente nada sem essas coisas.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Corações
Tomou coragem e disse-lhe. Sem rodeios. Já não era sem tempo, não há coraçãozinho que suporte mais tamanha angústia. Claro, sucedeu em taquicardia. Seu coração acelerou-se, órgão que é, numa epopéia de sístoles e diástoles.
Abriu seu coração, murmurou porquês entre suspiros pausados, gaguejos indizíveis e piscadelas furtivas.
Sabia que dela fazia parte um coração de ouro, certeza essa tinha ao admirar a pureza e inocência de seu sorriso tendendo ao pueril.
Com o coração na mão, despido de qualquer disfarce, a verdade saiu. As palavras, perdidas, tentaram em vão dar cor à ação.
Ela, pueril só no sorriso, já sabia décor a ação. Do fundo do coração, entendeu-o. Ou fez que sim, para que não se passasse por coração de pedra. Afinal, ele estava ou não entregando seu coração?!
Era uma cena de cortar o coração... Falar do coração e com o próprio nas mãos não é tarefa fácil - sugiro que haja condecoração aos bravos que se incumbem disso.
Quis o destino que ela corasse, que suas maçãs a entregassem no mais largo e franco sorriso que o mundo já teve o prazer de reproduzir.
Abriu seu coração, murmurou porquês entre suspiros pausados, gaguejos indizíveis e piscadelas furtivas.
Sabia que dela fazia parte um coração de ouro, certeza essa tinha ao admirar a pureza e inocência de seu sorriso tendendo ao pueril.
Com o coração na mão, despido de qualquer disfarce, a verdade saiu. As palavras, perdidas, tentaram em vão dar cor à ação.
Ela, pueril só no sorriso, já sabia décor a ação. Do fundo do coração, entendeu-o. Ou fez que sim, para que não se passasse por coração de pedra. Afinal, ele estava ou não entregando seu coração?!
Era uma cena de cortar o coração... Falar do coração e com o próprio nas mãos não é tarefa fácil - sugiro que haja condecoração aos bravos que se incumbem disso.
Quis o destino que ela corasse, que suas maçãs a entregassem no mais largo e franco sorriso que o mundo já teve o prazer de reproduzir.
Vírgula
Secou os cabelos vestiu as ceroulas caprichou no nó da gravata (nova) engoliu o pão com mortadela aquelas de padaria mesmo procurou as chaves apanhou a maleta fechou o gás e as janelas (talvez chovesse) calçou apressado os sapatos andou até o ponto tomou o Praça da Sé lotado espremeu-se na vergonha do transporte público perto das janelas de onde podia admirar o vaivém dos agoniados paulistanos pagou a passagem ao sonolento cobrador esquivou-se (murmurando licenças irrepreensíveis) até a saída pulou perto da São Bento andou até o escritório engoliu um café na portaria enfiou-se no elevador lotado subiu ao 7º caminhou à sua mesa secou o suor da testa com o punho da camisa esgueirou-se até a janela abriu-a (decibéis a invadiram) cerrou os olhos e pulou. Só então, respirou.
O que a Bíblia não conta
Certo dia, Caim e seu irmão Abel vinham andando pelas montanhas de Ur. Caim, o mais piadista do par, começou a desfilar seu talento em anedotas, anedotas-do-bichinho-da-maçã, piadas de louras, de português, de papagaio, sem papagaio, de corno, de bicharocas, de nordestino (sim, já existiam nessa época), de religião (essas, ele contou baixinho), de humor negro, de Adão – que não tinha sogra nem caminhão; caprichou nas politicamente incorretas, nas raciais, nas de sexo então...
Abel contorcia-se em gargalhadas:
- Um dia você acaba me matando!
Abel contorcia-se em gargalhadas:
- Um dia você acaba me matando!
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Olhares
Vai ver foi apenas mais uma flertada, um instante assim trivial, sem nexo ou explicação alguma. Um olhar, outro olhar e lá se ia a bendita troca. Como um scanner ela penetrou na mente, nos desejos mais íntimos, com uma habilidade ímpar. Sim, a tal habilidade feminina. Somos um livro aberto perante aos conhecidos “olhos de ressaca”. Sugam-nos nossos rompantes psicológicos, interpretam com uma destreza não copiável nossas sensações cotidianas; essas mulheres. Em contrapartida, resta a nós nos defendermos, já que, humanos comuns, não possuímos dom algum, tampouco nada relativo à “mind reader”.
E isso em apenas uma troca de olhares. Diria lânguido, não fossem perversos; combustível para os pensamentos mais impuros ( porém comedidos, visto o tal “poder feminino” ). Marionete, isso, marionete mesmo. Não passamos disso em relação aos olhares das mulheres. Gostamos dessa escravidão tênue e que acelera nosso coração e tira-nos a máscara de segurança que sempre carregamos. Um olhar.
E isso em apenas uma troca de olhares. Diria lânguido, não fossem perversos; combustível para os pensamentos mais impuros ( porém comedidos, visto o tal “poder feminino” ). Marionete, isso, marionete mesmo. Não passamos disso em relação aos olhares das mulheres. Gostamos dessa escravidão tênue e que acelera nosso coração e tira-nos a máscara de segurança que sempre carregamos. Um olhar.
Fuja!
Talvez fosse só mais um dia. Como se mais um dia fosse pouco à sua vidinha medíocre e sem graça. Talvez fosse um sonho... Mas tão real? Não, não poderia. Tudo parecia no seu devido lugar. Todos os seus sentimentos gelados e de solidão devidamente alimentados. Cargas de ódio cuidadosamente dosadas, transferidas lentamente à sua mente. Arrumou a camiseta, secou o suor do rosto. Somente mais um dia - pensou. Se ele havia agüentado tantos e tantos outros por que não haveria de aceitar mais um?
Suicídio? Desistiu faz tempo dessa hipótese. Seu sonho era morrer dormindo. Quem sabe assim fugiria da estupidez coletiva, do fardo de antipatia que carregava contra todos aqueles que o zombaram. O melhor seria fugir. Fuja dessa sua lógica inerte, fuja dessa sociedade estranha. Fuja!
Put you mind on and the sky will be the limit.
Fix you pray and the hole will disappear.
Suicídio? Desistiu faz tempo dessa hipótese. Seu sonho era morrer dormindo. Quem sabe assim fugiria da estupidez coletiva, do fardo de antipatia que carregava contra todos aqueles que o zombaram. O melhor seria fugir. Fuja dessa sua lógica inerte, fuja dessa sociedade estranha. Fuja!
Put you mind on and the sky will be the limit.
Fix you pray and the hole will disappear.
A paixão vem em estupor de pensamentos
Nada sobrará – disse certa vez o sábio, replicando minha aparente eloqüência. Ruiu qualquer fascínio que possuía sobre o velho.
– Como ousa? – necessitava de tempo para a tréplica.
Ele simplesmente apontou ao horizonte e disse: “pense”. E fiquei lá, pescando do céu possíveis respostas. Respostas plenas, fossem pelo murmúrio da aragem que fazia trepidar a campina sob meus pés, fossem pelo cair do orvalho sobre minhas rugas de dúvidas. “Devaneios febris” era como o velho costumava chamar as paixões e lembrar disso me fez rir. Adormeci com um sorriso no rosto e sonhei. Sonhei contornos de mulher. Era tudo utopia, quimera de minha mente, inebriada pela febre do querer. Torci para não acordar, temendo não sentir o roçar do meu corpo ao dela. Ah, Gabriela!
Peço desculpas pela voracidade em postar, mas preciso compartilhar com vocês sensações que (ultimamente) me dominam.
– Como ousa? – necessitava de tempo para a tréplica.
Ele simplesmente apontou ao horizonte e disse: “pense”. E fiquei lá, pescando do céu possíveis respostas. Respostas plenas, fossem pelo murmúrio da aragem que fazia trepidar a campina sob meus pés, fossem pelo cair do orvalho sobre minhas rugas de dúvidas. “Devaneios febris” era como o velho costumava chamar as paixões e lembrar disso me fez rir. Adormeci com um sorriso no rosto e sonhei. Sonhei contornos de mulher. Era tudo utopia, quimera de minha mente, inebriada pela febre do querer. Torci para não acordar, temendo não sentir o roçar do meu corpo ao dela. Ah, Gabriela!
Peço desculpas pela voracidade em postar, mas preciso compartilhar com vocês sensações que (ultimamente) me dominam.
Não é segredo de ninguém o fato de eu ter uma certa quedinha pela Srta. Cravo & Canela... e após um certo encontro, sob o mormaço que se abate sobre essa Paulicéia. E aqui vai, meio derrubado, meio apressado... como todo sintoma de paixonite.
A dríade
Mormaço. Ardia mais que qualquer Kalahari aquela tarde. As sombras ausentavam-se, irônicas. Especialmente as das árvores. Sombras fugidias, taí, um ótimo nome pra qualquer poema byroniano. Como quem dissesse “Ardam, culpados!”, a fornalha do Sol fazia o papel de vilão(...)
Seus cabelos louros, fios d’ouro brilhavam mais que o de costume. Ofuscavam a beleza de qualquer madeixa, por mais bela que fosse. Atraía-me, ardilosamente. No fundo ela sabia. Sabia que aquele olhar doudo, somado àquele perfume lascivo e provocante (sim, Castro Alves...) era armadilha a qualquer mortal, especialmente a mim. A tentação, misturada ao calor impávido, enleava-me, sussurrava-me, lânguida. Miragem, miragem...
E não mais que de repente, qualquer defesa que possuísse, se esvaiu perante a mais inocente e mais poderosa arma feminina: o sorriso, com aquele charme secreto, tendendo ao petulante. Era Pã, de cuja flauta havia soprado a mais perfeita das dríades. De graça ímpar, de sabores infindos... O amor com gosto de canela. Sabor de Gabriela.
A dríade
Mormaço. Ardia mais que qualquer Kalahari aquela tarde. As sombras ausentavam-se, irônicas. Especialmente as das árvores. Sombras fugidias, taí, um ótimo nome pra qualquer poema byroniano. Como quem dissesse “Ardam, culpados!”, a fornalha do Sol fazia o papel de vilão(...)
Seus cabelos louros, fios d’ouro brilhavam mais que o de costume. Ofuscavam a beleza de qualquer madeixa, por mais bela que fosse. Atraía-me, ardilosamente. No fundo ela sabia. Sabia que aquele olhar doudo, somado àquele perfume lascivo e provocante (sim, Castro Alves...) era armadilha a qualquer mortal, especialmente a mim. A tentação, misturada ao calor impávido, enleava-me, sussurrava-me, lânguida. Miragem, miragem...
E não mais que de repente, qualquer defesa que possuísse, se esvaiu perante a mais inocente e mais poderosa arma feminina: o sorriso, com aquele charme secreto, tendendo ao petulante. Era Pã, de cuja flauta havia soprado a mais perfeita das dríades. De graça ímpar, de sabores infindos... O amor com gosto de canela. Sabor de Gabriela.
Inspiração
Sim, eu precisava de inspiração. A do tipo que me arrebata uma, duas vezes ao ano. Todavia desconheça o poder desta, vou me aproveitar até a última gota. É inerente a qualquer homem se apaixonar. E inevitavelmente tendemos a herculices, miramos o alvo mais impossível. Claro, estamos sempre de sobreaviso, sentinelas, a espreita de uma mínima abertura à tentativa de tiro. Sequer calculamos precisão, só a alvejamos; talvez nos apoiando na máxima da quantidade. E assim estou eu, me furtando a esse tipo de atitude. Rondando tal qual Hércules ao pomo das Hespérides. Incertezas a parte, a sensação é recompensadora. Aparvalhado ou não, prometê-la-ei a Lua, se for preciso. A paixão exige pressa e jamais me atreverei a olvidá-la. Jogo a pedra, fato que seja longa a espera. Só peço-te, abra a janela, Gabriela.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
História sobre amores de um segundo
Após longa abstinência...
Tinha lá seus dezoito anos, menina de calças rasgadas compradas na loja de grife e a sua velha mochila vermelha de estudante com zíper quebrado, All Star era indispensável, às vezes listrado, às vezes preto, mas sempre, pelo menos nos dias da semana. Não se pode nunca ignorar os cabelos, castanhos cor de terra molhada, oleosos, mas nem por isso menos charmosos. Franja presa à orelha e estava pronta. Os olhos não tive tempo de notá-los, nem o pescoço ou as mãos, essas coisas que parecem essenciais a todo homem que simplesmente não me recordo. Desapercebida pela multidão, vestibulanda voltando do cursinho, ou talvez indo. Realmente não importa.
Na primeira vez a moça, nem mulher nem adolescente, estava sentada nos bancos pouco confortáveis, mas loucamente disputados do metrô da linha vermelha, leste-oeste. Todos os outros assentos do vagão estavam ocupados: senhoras, gordinhos, trabalhadores. O silêncio do cansaço imperava sobre os burburinhos fofoqueiros indistinguíveis. O portal eletrônico se fez majestoso e abriu com um estrondo de ar para que o rapaz entrasse.
Saltou sobre o vão e emergiu na atmosfera do transporte público. O anseio pelo caminho de casa o invadiu e o rapaz procurou um lugar. Acomodou-se em pé, de frente para a moça, com os braços estendidos na haste de metal e seguiu viagem.
Rapaz e moça trocaram despretensiosos olhares discretos, nenhum dos dois tinha humor para uma conversa com desconhecidos e também nada disso passava pelo turbilhão de pensamentos deles. O rapaz cantarolava dentro de sua cabeça uma música da qual só sabia o refrão e a moça; bem, vai saber o que se passa pela cabeça das mulheres.
Talvez a moça tenha notado o olhar cansado do rapaz, talvez tenha passado por situação parecida e se simpatizou com o rapaz, mas gosto de acreditar que tenha sido apenas automático, que não precise de justificativa. Com um sorriso quase infantil e bem amigável, a moça ousou pronunciar algumas palavras que certamente o rapaz não ouviu, mas entendeu o gesto. Apenas disse à moça para que não se incomodasse e que sua mochila estava bem pesada. O peso do conhecimento é algo realmente pesado. A moça desceu algumas estações depois, o rapaz tomou seu lugar e seguiu viagem.
A segunda e última vez foi a mais inesperada. O rapaz tinha uma mania que o preocupava, apesar de se autodenominar como desatento, tinha uma estranha facilidade em reconhecer rostos familiares, principalmente aqueles que encontrava no transporte público, mas nem todos, aqueles que de alguma forma eram notados por ele. Seja um bêbado atormentando os passageiros, uma mulher amamentando o filho, ou uma simpática moça que oferecesse o colo para carregar sua mochila.
De rabo de olho, aguardando a porta se abrir, o rapaz notou na janela do metrô a moça que inesperadamente retribuiu o olhar com um sorriso de rosto inclinado, fazendo a franja cair. Nem preciso dizer que a reação imediata do rapaz foi de uma inesperada alegria, mas ao entrar no vagão, nem ousou olhá-la.
O assento ao lado da moça estava livre, mas não sei bem por que, o rapaz decidiu sentar-se afastado, não muito, o suficiente para um discreto contato visual. Afinal de contas, aquilo ainda era o transporte público, não é lugar de conhecer pessoas, só bêbados conversam com os outros no metrô.
Pois é, não estava bêbado e se manteve calado por toda a viagem, a moça respeitou seu silêncio e chegou a hora de descer do vagão. Ela juntou-se ao aglomerado de pessoas ao redor da porta e pouco antes de sair, virou o rosto por cima do ombro e acenou para o rapaz, que a essa altura já cogitava saltar para fora do metrô junto da moça, nem se fosse apenas para perguntar seu nome. Apenas acenou de volta e se encostou novamente no assento. Suspirou e se apaixonou. Apaixonou-se por aquela moça das calças rasgadas intensamente até o segundo suspiro, até a próxima estação. Seguiu viagem.
Tinha lá seus dezoito anos, menina de calças rasgadas compradas na loja de grife e a sua velha mochila vermelha de estudante com zíper quebrado, All Star era indispensável, às vezes listrado, às vezes preto, mas sempre, pelo menos nos dias da semana. Não se pode nunca ignorar os cabelos, castanhos cor de terra molhada, oleosos, mas nem por isso menos charmosos. Franja presa à orelha e estava pronta. Os olhos não tive tempo de notá-los, nem o pescoço ou as mãos, essas coisas que parecem essenciais a todo homem que simplesmente não me recordo. Desapercebida pela multidão, vestibulanda voltando do cursinho, ou talvez indo. Realmente não importa.
Na primeira vez a moça, nem mulher nem adolescente, estava sentada nos bancos pouco confortáveis, mas loucamente disputados do metrô da linha vermelha, leste-oeste. Todos os outros assentos do vagão estavam ocupados: senhoras, gordinhos, trabalhadores. O silêncio do cansaço imperava sobre os burburinhos fofoqueiros indistinguíveis. O portal eletrônico se fez majestoso e abriu com um estrondo de ar para que o rapaz entrasse.
Saltou sobre o vão e emergiu na atmosfera do transporte público. O anseio pelo caminho de casa o invadiu e o rapaz procurou um lugar. Acomodou-se em pé, de frente para a moça, com os braços estendidos na haste de metal e seguiu viagem.
Rapaz e moça trocaram despretensiosos olhares discretos, nenhum dos dois tinha humor para uma conversa com desconhecidos e também nada disso passava pelo turbilhão de pensamentos deles. O rapaz cantarolava dentro de sua cabeça uma música da qual só sabia o refrão e a moça; bem, vai saber o que se passa pela cabeça das mulheres.
Talvez a moça tenha notado o olhar cansado do rapaz, talvez tenha passado por situação parecida e se simpatizou com o rapaz, mas gosto de acreditar que tenha sido apenas automático, que não precise de justificativa. Com um sorriso quase infantil e bem amigável, a moça ousou pronunciar algumas palavras que certamente o rapaz não ouviu, mas entendeu o gesto. Apenas disse à moça para que não se incomodasse e que sua mochila estava bem pesada. O peso do conhecimento é algo realmente pesado. A moça desceu algumas estações depois, o rapaz tomou seu lugar e seguiu viagem.
A segunda e última vez foi a mais inesperada. O rapaz tinha uma mania que o preocupava, apesar de se autodenominar como desatento, tinha uma estranha facilidade em reconhecer rostos familiares, principalmente aqueles que encontrava no transporte público, mas nem todos, aqueles que de alguma forma eram notados por ele. Seja um bêbado atormentando os passageiros, uma mulher amamentando o filho, ou uma simpática moça que oferecesse o colo para carregar sua mochila.
De rabo de olho, aguardando a porta se abrir, o rapaz notou na janela do metrô a moça que inesperadamente retribuiu o olhar com um sorriso de rosto inclinado, fazendo a franja cair. Nem preciso dizer que a reação imediata do rapaz foi de uma inesperada alegria, mas ao entrar no vagão, nem ousou olhá-la.
O assento ao lado da moça estava livre, mas não sei bem por que, o rapaz decidiu sentar-se afastado, não muito, o suficiente para um discreto contato visual. Afinal de contas, aquilo ainda era o transporte público, não é lugar de conhecer pessoas, só bêbados conversam com os outros no metrô.
Pois é, não estava bêbado e se manteve calado por toda a viagem, a moça respeitou seu silêncio e chegou a hora de descer do vagão. Ela juntou-se ao aglomerado de pessoas ao redor da porta e pouco antes de sair, virou o rosto por cima do ombro e acenou para o rapaz, que a essa altura já cogitava saltar para fora do metrô junto da moça, nem se fosse apenas para perguntar seu nome. Apenas acenou de volta e se encostou novamente no assento. Suspirou e se apaixonou. Apaixonou-se por aquela moça das calças rasgadas intensamente até o segundo suspiro, até a próxima estação. Seguiu viagem.
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